Este Blog é dedicado a arte. Tem como objetivo divulgar os artistas que não aparecem na mídia oficial, cujos espaços lhes são negados.
Paulo Carvalho
Por Que Tanto Ódio
POR QUE TANTO ÓDIO?
O que faz uma pessoa ter sentimentos tão mesquinhos? Desconhecimento, desamor, medo, insegurança?
As declarações de membros de comunidadespresumidamente de São Paulo no Orkut, com relação aos Nordestinos, pedem uma reflexão. Não dá para rebater no mesmo tom, seria no mínimo incoerência. Como disse o poeta Antônio Marinho em recente conversa, como discutir um assunto desta importância com pessoas que desconhecem Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire, O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro? Ou mesmo que desconhecem o valor de Rogaciano Leite, Graciliano Ramos, Câmara Cascudo, só para citar alguns, já que não podemos citar todos, pois são centenas nas áreas mais distintas.
Patriotismo exagerado, bairrismo, discriminação social, são coisas atrasadas e já nos levaram a guerras e outras sandices.
A pregação católica de que somos todos irmãos parece não encontrar eco na mente dessas pessoas, que na maioria se dizem cristãs, mas repercute bem na cabeça do ateu aqui.
Desconheço qualquer manifestação ou declaração de ódio dos nordestinos com relação aos paulistas ou qualquer outro povo, quando muito no próprio site existem comunidades como: “Odeio quem odeia Nordestinos” o que é razoável diante dos fatos.
Afinal, não vou falar de nenhum critério competitivo, como quem é melhor, ou quem tem as mais belas paisagens, praias, quem é mais rico ou produtivo, etc. não é por aí.
Tomo chimarrão todos os dias e não sou gaúcho, durmo em rede e não sou cearense, gosto de pão de queijo e não sou mineiro, não desprezo uma moqueca, um vatapá, um acarajé, um tacacá, tudo isso em nome da integração nacional. Gosto de vinho Francês, de Whisky Escocês, queijo Suíço, chucrute, taco, sashimi…
Sou um cidadão do mundo! O resto é pobreza de espírito, de uma minoria, claro.
Lua Nova de Socorro Lira é aquele CD obrigatório em qualquer discografia que se preze. O disco é um tributo ao compositor Zé do Norte “100 Anos” que andava meio esquecido, apesar da sua importância para o cancioneiro Nordestino e Brasileiro.
Admirado e cantado por muita gente, que na maioria das vezes não se lembram do autor. Quem não conhece os versos: Lua Bonita, se tu não fosse casada. Eu preparava uma escada pra no ir céu te beijar. Ou ainda: Olé mulher rendeira. Olé mulher rendar. Tu me ensinas fazer renda. Que eu te ensino a namorar. Da canção famosa Mulher Rendeira.
Participações especiais de Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Sandra Belê, Vanja Orico, e Zé Paulo Medeiros.
Bela homenagem de Socorro Lira ao inesquecível Zé do Norte, paraibano de Cajazeiras PB.O CD pode ser encontrado na Passa Disco onde Socorro Lira já esteve fazendo lançamento de trabalhos anteriores com a sua simpatia e competência.
Socorro Lira paraibana de Brejo da Cruz, é cantora, compositora, e produtora. Atualmente reside em São Paulo, mas sempre fiel as suas raízes Nordestinas.
Fui passar as festas juninas no sertão da Paraíba, na tentativa de ver e ouvir alguma coisa que me lembrasse um xote, um baião, um forró, qualquer coisa parecida com um arraial, uma Festa de São João. Nada. Sanfona, triângulo e zabumba foram banidos do pedaço, assim como as bandeirinhas, os bacamarteiros, as quadrilhas, até o milho assado estava difícil de encontrar, a preferência é por saquinhos de pipocas, dessas feitas no micro ondas.
Nos grandes centros, quem faz a festa são ilustres representantes da MPB do sul e sudeste, com repertórios que nem de longe lembram os folguedos juninos.
O lixo musical, e a mesmice predominam das Bandas afrodisíacas, uma boazuda, eroticamente seminua, dançando, e forró que é bom nem de longe. Os mais jovens sequer ouviram falar em Luiz Gonzaga, e dão risadas quando se tenta mostrar uma musica do mestre, ridicularizam. Coisa de velho, “Não dá pra dançar” dizem. É a geração dos energéticos e som na mala.
As quadrilhas juninas se apresentam com figurinos e coreografias alienígenas, carros alegóricos, e passos de balé ao som da Fuleragem Music. Desfilam em avenidas como verdadeiras escolas de samba, só falta agora o Forró Enredo.
Bacamarteiro
Retornando para Recife, e recebo a notícia: Dominguinhos sobe no palco de Aviões do Forró, canta com eles, afirmando que o grupo faz o melhor Forró do Brasil.
Joguei a toalha, Seu Domingos está com a razão.
Nem vou esperar pelos elogios do sanfoneiro para Calcinha Preta, Menina Safada, Mastruz com Leite, Banda da Loirinha e ao resto que se intitula estilizado.
Quem Caetaniou assim, vai de ladeira abaixo e não tem quem segure. Volto atrás e peço desculpas, se por acaso houver uma retratação pública, o que não acredito.
Depois da decepção do carnaval dos caretas pornográficos, e do São João sem Gonzaga, e das recomendações de Dominguinhos, o melhor mesmo é ficar em casa, antes que acabem com o frevo e o maracatu. Espero que só aconteça quando eu já estiver ouvindo a sanfona branca de Gonzagão, sentado numa nuvem, mangando dos bestas que ficaram aqui entupindo os ouvidos de merda.
Tá tudo dominado! O que está por trás disso, nos estamos cansados de saber. É a mesma coisa que move as guerras… O lucro e a corrupção política.
Recife é a única trincheira do forró autêntico, defendida pela Associação dos Forrozeiros, através do Forró e Aí, na Rádio Folha, da Rádio Universitária com o Forró Verso e Viola, da Academia Passa Disco da Música Nordestina e da Prefeitura da Cidade do Recife que até agora manteve a disposição de não contratar com dinheiro público as Bandas Fuleras. Caruaru furou o bloqueio e deu no que deu.
Pra mim esta Copa do Mundo está ganha independente do resultado dentro do campo.
O grande vencedor é o Continente Africano que mostrou para o mundo a alegria e exuberância do seu povo, mesmo diante de tanta adversidade.
Para os brasileiros, principalmente os que não leram Gilberto Freire e Darcy Ribeiro, estes iram entender melhor o nosso povo a partir do conhecimento de suas origens.
A dança, o canto, as roupas com corres berrantes, o sorriso largo, tudo isso faz parte de uma maneira de viver que tem como base a cultura africana. Como são diferentes dos sisudos Ingleses que por lá botaram banca durante tanto tempo.
É como se a África estivesse sendo redescoberta, ou reapresentada ao mundo com o lado bonito, de sua gente e de suas paisagens maravilhosas.
Passista do Bloco Batutas de São José
Revirei o meu baú de fotografias e achei esta passista do Batutas de São José, uma digna representante da nossa Africanidade, eles estão aqui, presentes na nossa língua, na culinária, na alegria, na malemolência, na esperteza, na sabedoria.
Lembro também de Pai Velho, pescador da praia de Barra Grande, que me ensinou alguns segredos do mar, que preparava uma tainha com um sabor inigualável.
Pai Velho.
Lembro de Bá, filha de escravos, que ajudou minha avó a criar doze filhos. Tomávamos a benção em sinal de respeito e admiração. Ela com idade indefinida creio mais de noventa, respondia aos nossos “bença Bá” com um “sói” e um afago nas nossas cabeças.
Vó - Madrinha de Jessier Quirino, aqui representdo Bá, que não me foi possível fotografar.
Estamos vendo pelas imagens da TV a nossa mãe África e a ela temos que dizer: Bença Mãe África.
Tratá-la com respeito, carinho e amor, assim como aos seus filhos.
O JORNAL DA BESTA FUBANA tem no anarquismo, enquanto filosofia política ideológica a sua principal linha. Em seguida, a irreverência e humor fazem parte da tônica do jornal, que tem sido palco de boas e esclarecedoras disputas do ponto de vista acadêmico. O próprio jornal propicia um espaço para o debate, onde os leitores podem colocar suas opiniões contra ou a favor do artigo publicado.
Recorrer à força, mandar retirar do ar, ameaçar de levar o caso a justiça, são práticas autoritárias, as quais, não estamos acostumados. A última vez que isso aconteceu foi quando Dom Dedé, reacionário fascista que todos nos abominamos, se rebelou contra o jornal por ter patrocinado um cordel alusivo a eleição de Bento. Daí fomos todos excomungados, ainda bem. Dom Dedé não usou o direito de resposta, usou da força e do autoritarismo prática comum nestas pessoas, saudosas dos tempos da ditadura militar.
Vamos para Triunfo.
Este ano durante o carnaval, estivemos em Triunfo, eu, Xico Bizerra, Salvador Soler, Anselmo Alves, e respectivas esposas. Quando o desfile terminou estávamos todos chocados com o que vimos. Na papeleta dos Caretas mirins podia-se ler frasesde mal gosto, além de forte conteúdo pornográfico, machista, preconceituoso, e discriminatório.
Escrevi um e-mail para a prefeitura da cidade de Triunfo, do qual nunca obtive resposta. Reclamava do conteúdo das papeletas, ofensivos, não só aos da cidade, mas, como aos que ali estavam de passagem esperando ver uma festa com o mínimo respeito as crianças e as mulheres.
Eis na íntegra o conteúdo da missiva.
Já visitei Triunfo em várias ocasiões e sou um admirador da cidade. Pela primeira vez, atraído pela apresentação dos caretas estive este ano no período carnavalesco.
Apesar da beleza do espetáculo fiquei chocado com o que se escreve nas papeletas dos caretas mirins, frases preconceituosas, com palavrões, racistas, enfim de péssimo gosto.
Uma delas ofendia todos os triunfenses, claro que não preciso repetir.
Não voltarei a esta bela cidade neste período. Me senti agredido, por mim, recifense e também por todos ali presentes.
É uma lastima!
Paulo Carvalho
Na ocasião não citei o que estava escrito nas papeletas das crianças, agora, apenas como exemplo, citarei algumas. Quem quiser ver mais é só assistir ao vídeo, feito na ocasião pela própria Prefeitura, ou conversar com algumas pessoas presentes incluindo o corpo de jurados.
Vimos e ouvimos coisas assim: Se puta fosse tanque de guerra, e fresco fosse fuzil, Triunfo estava preparada para defender o Brasil!Não vi ninguém da cidade se pronunciar contra, mas acredito que nem todos concordam com isso. Nenhum dos que agora censuram o jornal estavam lá para defender a honra da cidade.
Mulher é como macarrão, a gente enrola, enrola, depois come.Que desrespeito as mulheres, não sei se estavam se referindo apenas as deles, quem sabe.
Homem é feito vassoura, sem o Pau não vale nada. Seria o “pau” que define a grandeza dos homens do sertão? Ou os seus atributos de caráter!
Não vou perder tempo reproduzindo todas as frases, bastava só à primeira para representar toadas as outras. Com raras exceções algumas traziam versos com algum conteúdo sério.
Bar do Beto, que segundo o editor deste pasquim reúnem-se os leitores do jornal.
Hora, o local é conhecido pelo barulho do som de carros, (hoje crime previsto em lei) a todo o momento, agredindo nossos ouvidos com o volume, a péssima qualidade das músicas, se é que se pode chamar de músicas, estas também de conteúdo pornográfico, como exemplo: na bundinha, rachadinha, rebolacion e coisas assim. É o lixo musical que infelizmente prolifera em todo sertão pernambucano. Impossível permanecer no local, a falta de respeito com o ser humano é de doer na alma e nos ouvidos. Aliás, nunca vi um sujeito abrir a mala de um carro e colocar um som exageradamente alto para ouvir algo que preste. É só baixaria, e estelionato cultural como diz meu amigo Anselmo Alves no seu artigo Quero meu Sertão de Volta.
Outro dia quebraram a regra. O cantor e compositor Paulo Matricó fez uma bela apresentação no local, e foi só, o resto do ano é a mesmice de sempre.
Falta na realidade educação, caseira mesmo, para se respeitar quem está ao lado e não quer ouvir essas porcarias, e é obrigado por conta da altura que o som é colocado.
Vocês precisam, quando incomodados, responder, dialogar, protestar, discordar, tudo isso de forma acadêmica, no próprio espaço destinado ao debate.
Antes de simplesmente discordar, pesquisem, conversem com os mais velhos, com as mulheres do baixo meretrício, elas tem muito a contar, e a esclarecer. Nada de discriminar essas pessoas, elas fazem parte da vida da cidade, não só de freiras, beatas e conventos e cachaça vive o povo de Triunfo. Em Triunfo tem área de baixo meretrício, ou não? Se tem cabaré tem quenga, se tem quenga tem quengueiro e raparigueiro, e o que impede que estes usem mascara para comparecer ao recinto, e depois descer o morro com o chicote na mão, mascarado e um lenço na cabeça. Isto nunca aconteceu?
Existe a versão oficial, eu conheço, mas não acredito. Existem pessoas que ainda, nos dias de hoje, crêem em anjos, sacis, duendes, espíritos que descem ladeiras, encarnações e outras bobagens. É um direito delas pensar assim, que façam teses a respeito, só não queiram que todos acreditem, e em caso de discordância não querer queimar na fogueira. Assim como a ditadura, a idade média já passou, ou essa notícia ainda não chegou por aí?
Nos estamos falando de bares, boêmios e bordéis, fonte de muitos conhecimentos, que contestam a história oficial. A liberdade de contestar a crença estabelecida, é natural, não fosse assim não teríamos avançado na história.
Durante o carnaval a única exceção a música carnavalesca foi à apresentação de Marron Brasileiro, o resto é brega da pior qualidade. No São João são as bandas de “forro” estilizado, tipo Calcinha Preta, Menina Safada, os nomes falam por si, e as prefeituras bancam com o dinheiro do povo este tipo de evento. Não se ouve Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Maciel Melo, Flávio Jose, Flávio Leandro, João Silva, nada, é só música baiana de mau gosto, para que não sabe existe a boa música baiana, e brega que instiga a violência, a pedofilia e a cornitude.
Pessoal, vamos salvar o sertão, vamos retomar a verdadeira e autêntica cultura sertaneja, vamos crescer, abrir a cabeça, deixar essas picuinhas de lado, vamos conversar, trocar idéias, foi assim, não foi, digam isso nos espaços destinados à boa e salutar polêmica, leiam, pesquisem, discutam, mas deixem o coronelismo de lado.
Gosto de Triunfo e do povo de lá, faço elogios a beleza da cidade do seu casario antigo, do seu verde, e da sua hospitalidade, pelo menos da maioria das pessoas. Divulgo como fiz, aqui mesmo no JBF o carnaval dos Caretas. Agora críticas devem ser encaradas com calma e inteligência, não com censuras e proibições.
Considero a censura feita por alguns Triunfenses e não pelo editor do JBF.
Berto, mantenha a censura, é bom para o currículo, gosto de ser censurado, excomungado, como no caso de Dom Dedé, aliás, eles se merecem.
Fico com a IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA SERTANEJA, esta não censura ninguém.
Em 13/05/2010
Como nenhum deles usou o espaço democrático do JBF para defesa, ou para novos argumentos, preferindo o anonimato, o caso está encerrado. Um dia quem sabe vamos retomar a história dos Caretas. Quer dizer, dos Caretas fantasiados, e não os caretas de idéias e comportamento. Como no artigo censurado, não houve citação de nomes, apenas de fatos, que podem ser admitidos ou contestados, estamos em paz. Fica nos arquivos do editor, e só será publicado novamente, a meu pedido se houver necessidade. Atendi ao pedido de Luiz Berto, que isso fique bem claro, em nome da nossa amizade e do respeito que tenho por ele. Um grande abraço ao povo de Triunfo, cidade que eu continuo a gostar independente de uma minoria, a qual, tenho absoluta certeza que não representa o todo
Um trabalhador...Parece um jangadeiro conduzindo a sua jangada.
( Wilson Ferreira)
Metáforas
Os supermercados estão insuportáveis, filas e mais filas nos caixas, você leva horas para fazer compras. Creio que estas lojas encolheram, ou a população aumentou tanto que não cabe mais dentro delas.
No Shopping Center Recife com 5.000 vagas para veículos, não tem lugar para estacionar, no lado de dentro um verdadeiro formigueiro humano fazendo compras, e o dia dos namorados está longe ainda, nem é natal. Dizem que é o maior Shopping da América Latina em espaço físico. Deve ter perdido esta condição.
E o transito nas ruas do Recife, ah! Ninguém aguenta mais, engarrafamentos fenomenais, ruas intransitáveis. As ruas ficaram pequenas, o transito é mal administrado, os motoristas são responsáveis pelo caos.
Os vôos estão lotados, nem sobra mais àquela cadeirinha ao lado pra gente esticar as canelas. É um horror! O brasileiro está viajando muito, pra que? Negócios, passeios? Deveriam ficar em casa, na frente da televisão, vendo “O Brasil pela TV.”
Um empresário da construção civil me confessou que iniciou a construção de um condomínio de casas populares e quando abriu as vendas de mais de cem unidades vendou tudo em quarenta e oito horas. Que absurdo! As pessoas ficaram loucas, estão comprando casas!
Ou tá todo mundo louco, ou tem “dindim” sobrando no bolso. De onde vem a “mufunfa” no pé do cipa dessa gente. Eita povinho estragado!
Estou chegando de viagem, com passagem por Brasília, vi a população revoltada.
Como depor um governador, humilhar o sujeito mantendo o malandro na cadeia por tanto tempo? Já está solto e desmoralizado. Isto é uma injustiça, nunca aconteceu antes, tadinho dele.
Essa tal de Polícia Federal está exagerando, trabalhando demais, parecem cirurgiões, é operação pra lá, operação pra cá. Parem!
Em visita ao Palácio da Alvorada, reformado, (pra que reformar um monumento histórico, patrimônio da humanidade, construído por um comunista safado, um tal de Oscar.) Era pra deixar cair. Não pude fazer o mesmo no Palácio do Planalto, fechado pra reformas, pra que? A catedral, esta quase pronta já podemos entrar, bom, aí não vale, sou ateu.
Voltando ao Palácio Alvorada. Apontei a lente da minha Nikon (quis trocar por um modelo novo, não tem, compraram todas, que coisa hem!) e o que vi? Um trabalhador, com chapéu de palha, deve ser nordestino o felá da puta, fazendo uma limpeza no lago. Mas, como falou meu amigo Wilson Ferreira ao ver a foto, parece que o homem esta conduzindo uma jangada, por mares mais tranquilos que os de outrora, uma jangada de nome Brasil!
Na última metade dos anos sessenta algumas casas noturnas fizeram sucesso na noite Recifense.Diferentes dos cabarés do já decadente Bairro do Recife, não havia quartos para encontros, os casais chegavam para uma cerveja, uma dose de Cuba Libre, e dali seguir para algum lugar. Na maioria das vezes a alcova era o banco traseiro de um Fusca estacionado na beira mar, de frente, como quem está esperando para ver algum submarino, que por ventura estivesse espionando a costa Brasileira, séria ameaça a segurança nacional. A denúncia seria um ato de heroísmo e bons serviços prestados a pátria. Este argumento foi utilizado com frequência para convencer uma namorada mais resistente às boas intenções do garanhão. Depois com o carro já estacionado, e uma visão romântica do luar refletindo nas águas do oceano, as coisas ficavam mais fáceis. De vez em quando na saída o carro ficava preso no areal, neste caso podia-se contar com a solidariedade dos colegas do observatório para uma empurradinha.
Uma das boates mais famosas da época, o Sarong Drinks era uma construção de madeira, suspensa, tipo palafita, com decoração tipicamente Caribenha, com mulheres Havaianas pintadas nas paredes. Ficava na frente do Hospital da Aeronáutica, onde terminava o asfalto e começava a faixa do observatório de submarinos que se estendia até a igrejinha de Piedade. A música ficava por conta de uma radiola de ficha, Roberto Carlos estourava com: Quero que vá pro inferno, eventualmente um conjunto musical, clone de Renato e Seus Blue Caps, animava o ambiente.
Igrejinha de Piedade que, junto com o Hospital da Aeronáutica, servia de fronteira para a faixa de observação de submarinos
Na mesma área, funcionavam as boates, A Gruta e Ferro Velho, onde o charme era a completa escuridão nas mesas, estas, localizadas em nichos individuais, onde o garçom, portando uma lanterna, só aparecia se fosse chamado, para não atrapalhar o chamego.
A novidade era a luz negra, colocada no teto do salão de dança, “acendia” tudo que fosse branco, da roupa aos dentes, um jogo de luzes pipocava em spots pelo ambiente complementando os efeitos especiais. Estas boates também eram frequentadas por “gente de família” atraída pela novidade. Quem não conhecia “o inferninho” era considerado atrasado e cafona. No escuro, todos os gatos são pardos.
A primeira boate GLS da cidade foi sem dúvida a chiquérrima Chão de Estrelas, que tinha como anfritião o colunista social Alex de Sousa Alencar, famoso por suas aparições na TV, e proprietário da casa. Muito bem relacionado no meio artístico e na alta sociedade, Alex fez da boate um ponto de encontro da granfinagem local. Decoração sofisticada para os padrões da época, contava no recinto com pianista e excelente repertório musical baseado em sucessos americanos, e temas de filmes famosos, a bossa nova ainda não havia estreado no pedaço, embora já despontasse no Rio de Janeiro. Por aqui a música de João Gilberto era ouvida e comentada entre intelectuais, que envolvidos na luta política e sem dinheiro, se contentavam com um choppno Mustang Bar e um galeto dividido por quatro na Cantina Star.
Todas as boates citadas sucumbiram com o tempo e expansão imobiliária que tomou conta de Boa Viagem e Piedade a partir de então. Na verdade não tinham a vocação e o charme poético dos cabarés, nem tão pouco eram um castelo de inocentes, eram assim... Meia boca.
Quero que vá tudo pro inferno. De Roberto e Erasmo cantada pelo Rei.
Lendo Álvaro de Campos, (Fernando Pessoa) lembrei-me de uma antiga foto, feita em Antonina, pequena cidade da Serra do Mar, PR.
Era tudo que eu queria dizer olhando para aquela paisagem às cinco horas de uma fria manhã serrana. Daí a idéia de juntar a imagem ao texto do grande poeta.
Fui rebuscar no baú dos guardados as fotos feitas com a minha velha Pentax K 1000, analógica, que me acompanhou por quase trinta anos e que produziu resultados que não temem as digitais, modernas, automáticas, repletas de recursos quase nunca usados pela maioria dos felizes proprietários. Mesmo tendo aderido à foto digital, sempre levo a tiracolo a minha amiga inseparável. Não vou aqui discutir qualidades, vantagens analógica x digital, não é o meu propósito, não tenho conhecimentos técnicos sobre o assunto, e paixão não se discute. Pronto!
De hoje em diante, todas as vezes que estiver lendo uma poesia, ou um texto interessante, vou tentar encontrar nas imagens que guardei, de ontem e de hoje e junta-las, já que me falta a capacidade e a inspiração dos poetas.
PASSAGEM DAS HORAS
TRAGO DENTRO DO MEU CORAÇÃO,
COMO NUM COFRE QUE SE NÃO PODE FECHAR DE CHEIO,
TODOS OS LUGARES ONDEESTIVE,
TODOS OS PORTOS A QUE CHEGUEI,
TODAS AS PAISAGENS QUE VI ATRAVÉS DE JANELAS OU VIGIAS,
OU DE TOMBADILHOS, SONHANDO,
E TUDO ISSO QUE É TANTO, É POUCO PARA O QUE EU QUERO.
Eu sou a mãe da praça de maio Sou alma dilacerada Sou Zuzu Angel, sou Sharon Tate O espectro da mulher assassinada Em nome do amor Sou a mulher abandonada Pelo homem que inventou Outra mais menina Sou Cecília, Adélia, Cora Coralina Sou Leila e Angela Diniz Eu sou Elis
Eu sou assim Sou o grito que reclama a paz Eu sou a chama da transformação Sorriso meu, meus ais Grande emoção Que privilégio poder trazer No ventre a luz capaz de eternizar Em nós sonho de criança Tua herança
Eu sou a moça violentada Sou Mônica, sou a Cláudia Eu sou Marilyn, Aída sou A dona de casa enjaulada Sem poder sair
Sou Janis Joplin drogada Eu sou Rita Lee Sou a mulher da rua Sou a que posa na revista nua Sou Simone de Beauvoir Eu sou Dadá
Eu sou assim...
Ainda sou a operária Doméstica, humilhada Eu sou a fiel e safada Aquela que vê a novela A que disse não Sou a que sonha com artista De televisão A que faz a feira Sou o feitiço, sou a feiticeira Sou a que cedeu ao patrão Sou a solidão
Na frente: Salvador, Paulo, Arluce. Atrás: Lulu, Dulce, Xico
Durante o carnaval, representando a Igreja Católica Apostólica Sertaneja, os Cardeais Xico Bizerra e Dona Dulce, Paulo Carvalho e Arluce, esta última requisitando o status de fotógrafa do JBF, estiveram em peregrinação pelo Sertão Pernambucano, acompanhados pelo teólogo Espanhol Salvador Soler representante de outra igreja, e sua esposa Dona Lulu, num gesto de puro ecumenismo e trocas recíprocas de conhecimentos.
Salvador Soler e Lulu
O percurso compreendeu Buíque e Vale do Catimbau, Afogados da Ingazeira, Tabira, Carnaíba, Flores, Triunfo e Pesqueira. Em Carnaíba reverenciamos a memória do grande compositor Zé Dantas.
No Vale do Catimbau, que segundo o poeta Xico Bizerra, recebeu este nome quando uma velha índia catava piolhos em seus dois netos, Béu e Bau. Béu, já irritado com cata de piolhos disse: Vó a senhora só cata em mim, porque não cata im Bau, pronto... O vale recebeu o nome de Catimbau! O vale também ficou conhecido pela figura de um velho profeta chamado pelos seus seguidores de “Meu Rei” que segundo consta imaginava criar uma igreja puramente sertaneja na qual os fiéis seriam imortais, antecipando assim a idéia da ICAS. O profeta interrompeu seu intento quando faleceu aos 108 anos, isto não significa dizer que os seguidores do Papa Berto I não cheguem, pelo menos aos 150.
Visitamos ainda o Atelier do artista plástico, compositor e tocador de berimbau de lata Zé Bezerra, natural do Vale, que guarda no seu currículo uma famosa exposição de suas obras em São Paulo, na Galeria Estação uma das mais concorridas nesta área.
O Vale com mais de 140 milhões de anos, é conhecido por sua beleza, sua fauna e flora, e por inscrições rupestres.
Atelier de Zé Bezerra
Zé Bezerra, artista plástico, poeta e músico.
Afogados da Ingazeira fomos recebidos professor e radialista Saulo Gomes e sua esposa com um farto almoço cujo prato principal foi bode assado. Na ocasião animou a festança o violonista e pintor Edierck, que no dia seguinte nos acolheu em sua casa/atelier no centro da cidade.
Casa e Atelier de Edierck, pintor e músico. Afogados da Ingazeira PE.
Em uma noite chuvosa, com relâmpagos e trovões, ouvimos versos e glosas na cidade dos poetas e trovadores, Tabira, onde visitamos os Tabirenses Dedé Monteiro e Albino Pereira, este último pai do nosso amigo, poeta e cantor Paulo Matricó. Os poetas Dedé e Albino, evidenciaram o movimento cultural da cidade que promove vários festivais de literatura popular, com apoio das associações dedicadas a arte da cantoria e da poesia sertaneja.
Xico Bizerra, Dedé Monteirro, poetas. Paulo enxerido. Tabira PE.
Triunfo o Oasis sertanejo, estava em festa para receber os representantes da ICAS, uma maravilhosa apresentação dos Caretas, com seus chicotes e máscaras. Em seguida fomos premiados com um espetáculo de frevo com o cantor e compositor Marrom Brasileiro, que encantou e animou a platéia presente.
A nova safra forroboxoteana, deve vir impregnada do verde, da beleza das flores, e do sorriso nativo de Samara, belo e ingênuo, como quase tudo no Vale do Catimbau.
O olhar pensativo do poeta na foto é de quem está enchendo o quengo de motes, para depois tecer com maestria xotes e baiões.
Samara, pequena habitante do Vale do Catimbau
Esse pedaço do paraíso é a porta do sertão, desconhecido pela maioria dos pernambucanos, muitos deles com passaporte carimbado em vários países. Um amigo Catalão com quem estive no Vale o ano passado me perguntou: Porque vocês escondem esta beleza do mundo? Confesso que não tive resposta. De minha parte sempre que viajo praquelas bandas, procuro levar os amigos, mesmo correndo o risco de alguém não gostar, o que nunca aconteceu.
Arluce Carvalho
Arluce, minha companheira na estrada da vida há quarenta anos, ao ver uma mesa com bancos de pedra ao redor e vista para o Vale, disse: Este lugar é perfeito para uma reunião da ICAS (Igreja Católica Apostólica Sertaneja). Sim porque não? Faríamos uma grande romaria, com o Papa Berto na dianteira, acompanhado de padres, irmãs, bispos e cardeais, quem sabe dando os primeiros passos para a canonização de Chupicleide.
A vida está aí para ser vivida, vamos tirar a bunda da cadeira e soltar a alma cigana que existe dentro de cada um de nos, particularmente os nordestinados.
Nada de ficar, como dizia Raul Seixas, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar...
Pé na estrada companheiros, na rota do Vale do Catimbau!
O Vale do Catimbau fica no Município de Buique, PE.
Início da Rua do Rangel, no primeiro andar, uma tortuosa escada de madeira nos levava ao salão de dança. Meia luz, mesas toscas, destas que são vendidas na feira, cadeiras e tamboretes. O piso cedia e rangia a cada passo. Acho que o assoalho, nunca viu uma mão de cera, desgastado pelo uso, nos pontos mais usados podiam-se ver pequenos desníveis, marcas do tempo.
No segundo andar ficavam os quartos, apertadíssimos, divisórias de eucatex, que nem sempre iam até o teto, permitindo ouvir tudo que acontecia ao lado. O sanitário, ficava no corredor, a higiene, depois do “pão com manteiga” ficava por conta do famoso banho “checo” que tinha como acessórios uma pequena bacia, um jarro com água, sabão amarelo e uma toalha “coletiva” que um dia tinha sido branca.
No comando da pensão, o Sr. Barcelar, e pelo nome do dono ficou conhecido o cabaré. O atrativo eram os preços módicos, embora, raramente o freguês saísse de lá sem uma blenorragia como prêmio. Frequentada por estudantes e lisos em geral, não raro, alguém saia sem pagar, descia as escadas correndo com as calças na mão e a rapariga atrás aos gritos de xexeiro filho da pura!.
Mais adiante, na mesma Rua do Rangel, a Boate Mauá, esta tinha até elevador. Salão amplo, mesas forradas, garçons servindo, raparigas bem vestidas, roupas que deixavam à mostra os dotes da madame e excitava o pretendente. Nos finais de semana, uma orquestra com direito a cantor. De segunda à sexta, radiola de ficha, no repertório, Anísio Silva, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Núbia Lafayette entre outros. No térreo era feita a triagem da clientela, o consumo era obrigatório, principalmente quando tinha música ao vivo.
Na Rua Direita, Pátio do Terço, e imediações do Mercado de São José, assim como a Rua da Guia, no bairro do Recife era o fim de carreira para as prostitutas. Nos pés de escada ou na rua, mulheres caquéticas, maquiagem exagerada numa pífia tentativa de esconder as rugas dava um aspecto grotesco a face que outrora havia sido o encanto e desejo de tantos homens. Agora, doentes, morando em pensões de última categoria. Era o fim...
Os locais onde funcionavam os bordéis nesta área estão totalmente descaracterizados, o comércio tomou conta de tudo, nem o elevador da Boate Mauá escapou, o prédio da Pensão de Barcelar, foi demolido para dar acesso a Rua da Praia.
Victor Jara, cantor do povo Chileno, assassinado no Estádio Nacional de Santiago pelo crime de cantar a esperança.
Memória: Victor Jara, 36 anos depois
Este 4 de dezembro de 2009 é uma data para lembrar. Mais de 12.000 pessoas participaram do cortejo fúnebre após 36 anos do assassinato de Victor Jara em 1973. O crime cometido por militares nos dias que se seguiram ao golpe de Estado de Augusto Pinochet. Victor Jara, um dos mais populares personagens do meio artístico chileno no início da década de 70, também é uma das mais de 3.000 vítimas, entre mortos e desaparecidos, da ditadura de Pinochet. Mais tarde, o Estádio do Chile seria renomeado Estádio Víctor Jara.
Gustavo de Mello
Aqui no sul é necessário disputar com a indiferença uma memória viva do continente americano. Como explicar que ser lúcido é dizer que tantas vezes nos mataram? Cantar que tantas vezes morremos e agora estamos aqui, como cigarras, ressuscitando. O recente funeral do compositor chileno Victor Jara é uma homenagem 36 anos após seu assassinato para que possamos dizer que seguimos cantando.
Este 4 de dezembro de 2009 é uma data para lembrar. Mais de 12.000 pessoas participaram do cortejo fúnebre após 36 anos do assassinato de Victor Jara em 1973. O crime cometido por militares nos dias que se seguiram ao golpe de Estado de Augusto Pinochet.
A viúva do cantor, diretor e versátil artista chileno a época de sua morte, lhe deu sepultura semi-clandestina em setembro de 1973, no Cemitério Geral, acompanhada por duas pessoas. Enterrou o marido em uma sepultura modesta, no mais antigo cemitério de Santiago. Fora do cemitério, a capital dos chile nos vivia sob o medo e as perseguiçãoes da ditadura do general Augusto Pinochet. Victor Jara, um dos mais populares personagens do meio artístico chileno no início da década de 70, também é uma das mais de 3.000 vítimas, entre mortos e desaparecidos, da ditadura de Pinochet. Mais tarde, o Estádio do Chile seria renomeado Estádio Víctor Jara.
O cantor popular Victor Jara foi devolvido para a mesma sepultura onde esteve todos esses anos 36. No ataúde de madeira onde repousam os restos mortais de Jara sepultado no dia 18 de Setembro de 1973, a viúva o depositou, mas a diferença é que neste segundo enterro estava cercada pelo carinho popular e por uma multidão que sabia o valor de sua história e que cantou suas canções.
Foi uma marcha mais alegre que um funeral tradicional, sem nenhum incidente e sem a vigilância ostensiva da polícia. A multidão percorreu a pé, lentamente, cerca de 40 quarteirões de distância do cemitério, durante mais de cinco horas sob o sol impiedoso da primavera de Santiago. A homenagem a Victor Jara foi um concerto na voz de milhares de chilenos.
Em junho deste ano o juiz que investiga o assassinato de Jara decidiu exumar os restos mortais do cantor. O ataúde foi restaurado por Amanda, uma das filhas do artista, depois de o corpo de Victor Jara ter sido exumado para ser submetido a uma série de exames. Após a decisão tomada pelo juiz Fuentes Belmar, o Serviço Médico-Legal confirmou que o artista recebeu mais de 30 impactos de bala em todo o corpo.
Ao finalizar as perícias e devolver os restos mortais à viúva, Joan Turner, e às filhas, Manuela e Amanda, elas e a Fundação Victor Jara, que cuidam da memória do cantor, decidiram oferecer o funeral e uma vigília de dois dias, como merecia o autor de Te recordo, Amanda, O Cigarrinho e Manifesto canções antológicas que muitos artistas incorporaram em seus repertórios.
Enquanto o cortejo avançava as pessoas que lotavam as calçadas jogavam cravos vermelhos e rosas no carro fúnebre que, surpreendentemente, não estava na cabeça do cortejo como é costume nos funerais, mas protegido pela multidão no meio do cortejo, como um símbolo da democracia, cercado por uma guarda de honra. Atrás era acompanhado por centenas de coroas de flores empilhadas em um caminhão.
Quando o caixão deixou a Fundação Jara, foi carregado nos ombros de várias pessoas que eram amigos do cantor, incluindo alguns membros do Inti Illimani, um conjunto musical, formado em 1967. Em um edifício no alto de uma varanda do prédio, no centro da cidade onde passava o cortejo fúnebre, um guitarrista começou a acompanhar a multidão que cantava “Te recordo, Amanda, A rua molhada/Correndo à fábrica/Onde trabalhava Manuel./O sorriso largo/A chuva no cabelo/Não importava nada/Você foi ao encontro dele”.
Uma variada e colorida multidão se espalhava por mais de 10 quarteirões. Predominavam os jovens, incluindo grupos de roqueiros, punks, grupos de dança da população mapuche, dançarinos do norte do Chile, organizações de gays, os estudantes, a torcida de Los de Abajo, Universidade do Chile, um dos clubes de futebol mais populares do país, juntamente com ex-presos políticos, representantes de grupos de vitimas e familiares de desaparecidos políticos e ativistas de movimentos sociais.
A entrada ao cemitério acabou com uma cerimônia reservada aos familiares e amigos mais íntimos para testemunhar o momento em que o caixão foi devolvido a sepultura onde estava desde 1973.
Quando o carro fúnebre entrou na sala, os participantes tomaram as mãos e cantaram o hino nacional e, em seguida, se ouviu A Partida de Jara.
Um mar de bandeiras vermelhas com o rosto estampado de Victor cercou a longa procissão, aos gritos de "Justiça. Verdade. Não à impunidade!". O Presidente do Partido Comunista Guillermo Teillier descreveu Victor em seu discurso como um "símbolo de nossa luta, com a mais temida arma, sua guitarra e suas canções." Sua obra continuou, "vai viver para dar esperança (...) com sua música, mil vezes vai prevalecer".
Uma das participantes foi a ministra da Cultura, Paulina Urrutia, o candidato presidencial da coligação que é liderada pelo Partido Comunista (PC), o ex-ministro Jorge Arrate, um socialista que teve de se desfiliar ao seu partido para concorrer as eleições presidenciais de 13 de dezembro de 2009.
Muitos participantes ficaram até o final do enterro. Para Hector Torres, que é integrante do conjunto que interpreta músicas folclóricas conhecido pelo nome de Umbral, formado por amigos que desde os tempos da ditadura interpretam canções de Jara em dezenas de concertos em bairros operários, disse que "Victor é maior do que sua própria morte. Suas canções têm resistido ao teste do tempo. Como cantor tinha um timbre de voz muito bonita e uma tessitura agradável capaz de momentos únicos, que permitiam algo que é muito difícil, ir de notas altas às mais baixas.
O diretor de um centro cultural, que viajou 500 km para assistir ao funeral, disse: "Nós devíamos este ato ao Victor. Tínhamos o dever moral de fazê-lo, era uma dívida que o povo tinha com ele." “Creio que Víctor Jara está por aqui, conosco (…) continua a viver e a lutar conosco por um mundo melhor”, disse a viúva do cantor, a britânica Joan Turner.
Com a decadência dos bordéis no bairro do Recife, até que surgissem os motéis, houve um período de transição, onde se destacaram alguns edifícios que inicialmente foram construídos para servir de apoio as famílias abastadas nos períodos de férias e finais de semana. Os mais famosos Holiday de 1957 e Califórnia 1959, são belos projetos arquitetônicos, possuíam pequenas suítes, ou quitinetes, dotados de elevadores, com bela vista para o mar. No térreo, lojas, lavanderias, bares, e outros serviços.
A festa dos ricos durou pouco, os dois edifícios famosos, de aluguel barato, foram ocupados por prostitutas, homossexuais e rapazes solteiros e raparigueiros, que faziam dos apartamentos suas “marmitas” ou castelos como eram chamados, mas, serviam mesmo para encontros amorosos. Outros, menores como o Gaibú e o edifício onde hoje funciona a Galeria Casa Grande, que abrigou a famosa boate Samburá, um bordel de luxo, no terminal de Boa Viagem, tiveram outro destino, o Edifício Gaibú é hoje residencial, sem vestígios do passado.
Os moradores do Holiday e Califórnia,personagens de uma época, transformaram o ambiente numa república libertária onde tudo era permitido. A música, a cachaça a alegria típicas dos bordéis dava a tônica do lugar. A solidariedade e respeito mútuo virou uma marca dos condôminos, que, unidos impediam inclusive a entrada da polícia no recinto. Certo dia, uma viatura da RP teve o teto atingido por um bujão de gás atirado do alto do Ed. Holiday, fazendo com que os policiais deixassem rapidamente o local. Uma cena muito engraçada no mesmo edifício foi no dia em que um dos moradores, cheio de aguardente, chegou à janela e começou tocar insistentemente um apito, destes usados pelos juízes de futebol. Em poucos minutos todas as janelas estavam repletas de mulheres, como o Holiday tem uma estrutura curva, tem-se uma visão de todas as janelas, de onde quer que você esteja. Daí, o tal sujeito perguntava, mostrando o apito: Vocês sabem o que é isto?Vocês sabem o que é isto? Como ninguém o respondia, ele disse: Isso aqui é um apito de chamar puta!Olha aí vieram todas...
A história também tem seu lado triste, assassinatos como o de Boni, e do pianista Bamba, este, figura querida por todos, e que tocava na noite, mortos por rapazes da sociedade que nunca foram punidos. Imaginem, se hoje matar um gay, ou uma prostituta ainda é sinônimo de impunidade, naquele tempo o sujeito sequer era incomodado pela polícia.
Depois de várias e infrutíferas tentativas de mudanças, atualmente o Califórnia teve a fachada totalmente recuperada, o Holiday, ao que parece, também será revitalizado.
O tempo que se encarrega das mudanças, trouxe os cabarés do Bairro do Recife, para Boa Viagem, e distribuiu por toda a cidade. Hoje as raparigas estão nas ruas, nas casas de massagem, nos Shoppings. Os quartos de pensão foram substituídos pelos motéis, cadê o salão, a dança, a radiola de ficha, as luzes coloridas, foram ficando pra trás. E a poesia que reinava entre os boêmios, nos alegres bordéis, vai desaparecendo, tristemente, entre quatro paredes.
Não digo o nome: Canta Anísio Silva - Composição de Jair Amorim.